Corre mundo fora a enorme
mentira que estreou há tempos em Hong Kong o primeiro filme porno em 3D. Um
grande golpe de marketing, sim senhor.
Segundo a enciclopédia mais
consultada do planeta, pornografia é «a representação de cenas ou objectos
obscenos com o intuito de despertar desejo sexual no observador».
Claríssimo (quer dizer, mais ou menos, que essa coisa do “desejo sexual” é a chapada
biológica que nos lembra que, apesar de termos inventado a
máquina a vapor, o sistema constitucional de pesos e medidas, e a Bimby,
continuamos a ser na nossa mais íntima perversidade autênticos animais.)
O filme em questão, “3-D Sex and
Zen: Extreme Ecstasy“,
foi proibido na China. Supus que a razão para tal fosse o receio
que a libertinagem do filme pudesse vir a excitar a safadeza dos jovens e,
sobretudo, das jovens chinesas. Um bando de adolescentes a pulsar de lascívia
incontrolável será, possivelmente, a maior ameaça a um regime autoritário.
Esperava a descoberta pelo Oriente da luxúria efervescente do Meyer, ou dos
impulsos reprimidos do Buñuel, ou das deliciosas fantasias do Fellini. Ou, no
mínimo, um regabofe americanizado que desse para umas gargalhadas brejeiras.
Esperava demasiado cinema de um filme porno – deste filme porno, que nem é
porno, quanto mais filme.
Do não ser filme. Não me
apetece discorrer acerca cinematografia do espécimen, até porque tal coisa não
existe: não há tema nem estilo, não há um pingo de cinema nos enquadramentos
(nos planos, filmados com pretensões formalistas, as personagens entram e saem
como calha – erros que qualquer aluno de Cinema evita desde o primeiro ano), a
montagem é um caos, as cenas sem qualquer noção de ritmo, a edição sonora
angustiante de tão barulhenta, a trilha musical ridícula de tão desinspirada
(para uma das cenas mais “eróticas” do filme inventou-se uma variação infantil
da Habanera da Carmen), as actuações são de telenovela venezuelana à chinesa,
os efeitos especiais e de caracterização da mesma equipa das mini-séries da
RTP, …, . E o pior pior é este todo amorfo de absurdidades não ter graça
nenhuma. Sou um grande fã das séries B a Z, mas este filme nem sequer cai
naquela categoria dos filmes maus que por tão maus são bons. Não é um filme
mau, é um chafurdice visual – e sonora, sobretudo sonora! – muito mal
amanhada. Não é um filme, ponto; é outra coisa qualquer.
Do não ser porno. Nem sei por
onde começar. Há sexo, muito sexo – não, corrijo: há coito, muito coito; mas
não há prazer. Há mamas e chinesas bonitas – digo, mamas, chinesas, e mamas
chinesas bonitas. Há as piadas do costume: as erecções impertinentes, a
genitália sobre e sub avantajada, a ejaculação precoce (o filme passa-se, historicamente, antes
da China Maoísta, onde esse
problema não existia, como é sabido). Há uns primeiros vinte minutos
em que a aura de sensualidade se vai compondo, com uns ligeiros turnoffzinhos fruto das
diferenças culturais entre Ocidente-Oriente, creio, como o facto de beijarem
com a boca aberta das pescadas, mandarem os preliminares para as urtigas,
apertarem-lhes o peito com o jeito abrutalhado da ordenha, e emitirem, no sexo
oral, um som assustadoramente semelhante ao que fazem quando sorvem noodles em
sopa.
Depois desse início sensual,
por alguma razão obscura (talvez para agradar aos tarados das filias,
importantes nichos de mercado), o sangue substitui o sémen, e o soft-porno
passa a gore hardcore: tortura, sadismo, bestialidade, mutilações várias e a
gosto, sempre embaladas pelos gemidos insuportáveis delas, monocórdicos,
mecânicos, nos antípodas do prazer, como se a libido das chinesas gritasse com uma
voz de dor incomportável. A sensualidade é substituída pela repulsa, que é
extrema na cena de mutilação genital em que se faz uso de instrumentos de
tortura do tempo da Inquisição; e mais para o fim, quando o protagonista tenta
evitar que a gangrena se espalhe numa das suas pernas putrefactas. Reparem
na família de substantivos que acabei de usar para descrever o filme
– porno, chamam-lhe.
Portanto, se nem filme nem
porno esta coisa é, resta-me concluir que a dita coisa não pode ser outra coisa
que não uma valente merda.
Não vos quero deixar augados, por isso peguem lá tudo o que me faltou ontem.
Não vos quero deixar augados, por isso peguem lá tudo o que me faltou ontem.
publicado em 12.05.2011