Crítica ao filme Laputa – Castle in the Sky (1986) de Hayao Miyazaki
Publicada em animeportugal.net em 04/2007
Era uma vez um povo que, na terra onde humildemente trabalhava, descobriu a chave para dominar os céus. Muito rapidamente, esse povo se tornou numa poderosa civilização que deixou a terra para viver entre as nuvens, em majestosas cidades flutuantes. O seu incomparável desenvolvimento concedeu-lhes a força para dominar e subjugar os povos de “baixo”. Mas foi essa ambição desmedida por poder, cega aos seus próprios limites, que ditou a queda de um mundo que tinha esquecido que “todos vimos da terra e a ela todos voltamos”. Numa das mais belas sequências criadas por Hayao Miyazaki para este filme, ao som do não menos belo tema de Joe Hisaishi, nos é assim contada a história do povo que construiu Laputa, a última cidade flutuante da Terra.
“Para além daquela nuvem fica uma cidade perdida que ninguém no mundo sabe que existe.” “Laputa – Castle in the sky” (1986) é uma das obras menos conhecidas da longa carreira de Hayao Miyazaki, feita muito antes do reconhecimento internacional que o realizador obteve por “Princesa Mononoke” e “A Viagem de Chihiro”. Existe como que uma tendência para olhar para os seus primeiros filmes como obras menores: filmes como “Laputa…”, “Castle of Cagliostro”, “Nausicaä of the Valley of the Winds”, ou séries como “Conan” e “Lupin III” são muitas vezes esquecidos à sombra das suas obras-primas “consagradas”. Renunciando a esta tendência, insisto em considerá-lo uma das obras mais bem conseguidas de Miyazaki, incontornável marco na carreira do realizador e filme obrigatório para qualquer fã da sua anime.
O filme conta a história de Pazu, um rapaz ajudante de mineiro, que vê o seu destino cruzar-se com o de Sheeta, a princesa herdeira ao trono de Laputa. Sheeta, por ser a única pessoa capaz de indicar o caminho para a cidade perdida, é perseguida tanto pelo exército como por piratas, que ambicionam os poderosos segredos e tesouros nela escondidos. Caberá a Pazu e Sheeta impedir que todo esse poder (“um poder capaz de dominar o mundo”) caia nas mãos erradas. Enfrentando grandes desafios que encontram nas aventuras que passam juntos, nasce entre os dois uma amizade que se vai fortalecendo ao longo da sua missão.
Laputa fala, antes de mais, da incrível força da amizade. Pazu e Sheeta são personagens dotadas de uma grande humanidade e é por isso que nos reconhecemos nelas e testemunhamos os seus dilemas e desejos. O filme faz bem o contraste entre os dois tipos de força em relevo: de um lado o desejo cego por poder e a ambição destruidora que o alimenta (o domínio do poder de Laputa); e do outro a crença na amizade como força criadora de beleza e protectora da harmonia no mundo (a amizade de Pazu e Sheeta).
As outras personagens têm igualmente fortes personalidades e, consoante o papel que desempenham, teimam em dar o seu “contributo” particular à história. Entre elas, muitas são as que nos conquistam: o casal de mineiros amigo de Pazu, o tio Pomme que vive sozinho numa mina abandonada e, claro, Dola e a sua família de piratas a quem pertencem os momentos mais divertidos do filme.
Uma história da dimensão épica de Laputa pode, a partida, correr o risco de se insuflar no espectáculo de impressões superficiais de “encher o olho” completamente vazias de sentimento. Mas Miyazaki, ao conceder que sejam as acções e emoções das personagens a orientar o desenvolvimento da história e não o contrário (ou seja, em que estas seriam meros instrumentos para fazer avançar a narrativa) desmarca-se desse perigo e, conjugando harmoniosamente o impacto visual, ritmo do filme e banda sonora, consegue um raro equilíbrio entre a grandeza da narrativa épica e a simples humanidade das personagens.
Como não poderia deixar de ser na anime de Miyazaki, o filme é também fio condutor de uma mensagem, que nos apela directamente. “Forma raiz na terra, vive em harmonia com o vento, planta as tuas sementes no Inverno, e festeja com os pássaros a chegada da Primavera” – é parte do poema citado por Sheeta quando finalmente compreende o porquê da queda de Laputa. A cidade é, assim, como que um monumento póstumo a uma sociedade que renegou o mundo em que vivia, esqueceu que era parte da natureza e transpôs os limites desse equilíbrio harmonioso. O impacto visual da anime tem uma função muito importante em transmitir esta mensagem ao espectador, já que somos constantemente surpreendidos por imagens com uma carga simbólica muito forte, envolvidas na mística de fantasia e mito que só Miyazaki consegue criar.
Um filme cheio de cenas memoráveis, Laputa pode tornar-se marcante para muita gente. Para mim tornou-se, sem dúvida – o despertar da vila mineira pelo trompete de Pazu, Sheeta a descer do céu envolta numa áurea de luz celestial, a passagem pela tempestade e, por fim, a chegada a Laputa. Esta última cena, com certeza, a mais arrebatadora do filme, na qual nos é mostrado um curto vislumbre do paraíso, segundo o génio de Miyazaki, em que todas as forças em confronto encontram, finalmente, uma (utópica) noção de harmonia – a tecnologia ao serviço da natureza e a vontade humana empenhada em protegê-la, contemplando e vivendo toda a sua beleza.